Análise de empresas
Crescimento vs. valor: dois estilos de investir em ações
⚠️ Aviso importante antes de começares a ler
Este artigo é exclusivamente educativo e informativo. Não constitui recomendação de compra ou venda de qualquer ativo financeiro. Os exemplos de empresas e ETFs servem apenas para ilustrar conceitos — não são sugestões de investimento. Qualquer decisão deve ser tomada com base na tua situação financeira pessoal, preferencialmente com apoio de um profissional autorizado pela CMVM.
Dados de mercado (PER, P/B, cotações) mudam diariamente — verifica sempre nas fontes indicadas antes de agir. O desempenho passado não é garantia de resultados futuros.
Quando começas a explorar o mundo das ações, rapidamente perceberes que há dois campos bem distintos: os que procuram empresas "baratas" e os que pagam um prémio por empresas que crescem a grande velocidade. São dois estilos de pensar sobre o dinheiro — e sobre o risco. Nenhum é superior ao outro. O que muda é o contexto, o ciclo económico e, acima de tudo, o teu perfil como investidor.
Vamos perceber como funcionam os dois, o que os números dizem e o que tens de ter em conta enquanto investidor português.
O que distingue estes dois estilos? Métricas e lógica de cada um
Investimento em valor (value investing)
A ideia é simples: comprar uma empresa por menos do que ela vale. O conceito foi formalizado por Benjamin Graham em Security Analysis (1934) e depois em The Intelligent Investor (1949) — os livros que moldaram investidores como Warren Buffett.
Na prática, um investidor de valor procura:
- PER (Price-to-Earnings Ratio) baixo — tipicamente abaixo de 15x. Ou seja, estás a pagar 15 euros por cada euro de lucro anual da empresa.
- P/B (Price-to-Book) abaixo de 1,5 — o preço de mercado está perto (ou abaixo) do valor contabilístico dos ativos.
- Dividend yield elevado — acima de 3–4% — o que significa rendimento mesmo sem valorização da cotação.
Na bolsa portuguesa (o PSI), este perfil é o dominante. A EDP, a NOS e o BCP são exemplos de empresas maduras, com negócios regulados ou estabilizados, que historicamente distribuem dividendos generosos. Não são negócios que vão triplicar receitas em três anos — mas oferecem previsibilidade.
Investimento em crescimento (growth investing)
Aqui a lógica é diferente: pagas um prémio hoje porque acreditas que a empresa vai crescer muito mais depressa do que o mercado prevê. PER de 30x, 50x ou até mais é comum — e considera-se aceitável se o crescimento de receitas ou lucros for suficientemente elevado.
O que interessa não é o que a empresa ganha hoje, mas o que se espera que ganhe daqui a cinco ou dez anos.
Na bolsa portuguesa, os exemplos mais próximos deste perfil são a Jerónimo Martins — com receitas que atingiram €26,3 mil milhões em 2023, um crescimento de +13% face a 2022, impulsionado pela expansão internacional da Biedronka na Polónia e da Ara na Colômbia (fonte: Relatório e Contas JM 2023, jeronimomartins.com) — e a Galp, com o projeto de lítio em Barroso a abrir uma frente de crescimento nova, muito diferente do seu negócio histórico de petróleo e gás.
Números-chave e ciclos históricos
Os dois estilos não se comportam da mesma forma ao longo do tempo. Há ciclos favoráveis e ciclos adversos para cada um — e perceber isso é fundamental para não tirares conclusões precipitadas.
| Período | Estilo que dominou | Contexto |
|---|---|---|
| 2000–2007 | Valor | Rebentamento da bolha dot-com |
| 2008–2020 | Crescimento | Taxas de juro próximas de zero |
| 2021–2022 | Valor | Subida agressiva das taxas de juro |
| 2023–2024 | Crescimento | Boom da inteligência artificial |
Repara no padrão: as taxas de juro são um motor fundamental desta rotação. Quando o dinheiro é "barato" (taxas baixas), os lucros futuros valem mais hoje — o que favorece empresas de crescimento. Quando as taxas sobem, esses lucros futuros ficam mais penalizados no desconto, e as empresas com resultados sólidos já hoje ganham atratividade.
Em 2024, o S&P 500 Growth ETF (IVW – iShares) subiu cerca de +33%, enquanto o S&P 500 Value ETF (IVE – iShares) subiu cerca de +16% (fonte: iShares/BlackRock, dados a 31/12/2024). O boom da inteligência artificial, que beneficiou desproporcionalmente as grandes tecnológicas americanas, explica em grande parte esta diferença.
Numa perspetiva mais longa, nos dez anos até ao final de 2024, o MSCI World Growth acumulou cerca de +270%, contra cerca de +120% do MSCI World Value (fonte: MSCI factsheets — verifica em msci.com antes de usar este dado em decisões concretas, pois os valores são actualizados regularmente).
Quanto ao contexto atual: o BCE iniciou cortes de taxa em junho de 2024, reduzindo a taxa de depósito de 4% para 3,25% até ao final do ano (fonte: ecb.europa.eu). Em teoria, descidas de taxas tendem a favorecer o crescimento — mas o mercado raramente se comporta de forma tão linear.
O caso otimista de cada estilo
Por que o valor pode vencer
Empresas "baratas" têm algo que o crescimento não tem: margem de segurança. Se pagares pouco por um negócio sólido, o espaço para perder é menor. Em períodos de incerteza ou volatilidade, as empresas de valor tendem a resistir melhor precisamente porque as expectativas já são modestas.
Os dividendos são outro argumento: receber 5% ao ano em dividendos, mesmo que a cotação não suba, é um retorno real. Para investidores que querem rendimento regular — reforma, complemento de rendimento — este aspeto é muito concreto.
No PSI, o dividend yield médio tem historicamente estado acima da média europeia, o que o torna atrativo para este perfil.
Por que o crescimento pode vencer
Uma empresa que cresce receitas a 25% ao ano pode duplicar de dimensão em três anos. Mesmo que pagues um PER elevado hoje, se o crescimento se confirmar, a avaliação acaba por se "justificar" retroativamente. A inovação — inteligência artificial, energias renováveis, biotecnologia — pode criar mercados inteiramente novos que os rácios tradicionais simplesmente não conseguem capturar.
Para investidores portugueses que querem exposição ao crescimento sem selecionar ações individuais, ETFs como o iShares MSCI World Growth (IWDG), disponível na Euronext de Amesterdão com um TER de 0,25%/ano, são uma alternativa acessível.
Combinar os dois estilos numa carteira — o chamado blend — é aliás a abordagem mais comum entre investidores individuais, e pode reduzir a volatilidade global da carteira.
Os riscos de cada estilo
Riscos do valor: a armadilha do barato
Uma empresa pode ser barata por uma razão muito simples: o mercado sabe algo que tu ainda não processaste. Negócio em declínio estrutural, gestão fraca, setor disruptado tecnologicamente — o que parece um desconto pode ser apenas um reflexo da realidade.
O BCP é um caso ilustrativo: o banco negociou com P/B abaixo de 1 durante vários anos consecutivos, sem que isso gerasse valorização expressiva das ações durante esse período. "Barato" não é sinónimo de "vai subir".
Riscos do crescimento: a queda quando as expectativas falham
Empresas com PER de 50x ou 60x estão a ser avaliadas com base em expectativas altíssimas. Qualquer deceção — um trimestre de resultados abaixo do esperado, uma revisão em baixa das previsões de crescimento — pode provocar quedas de 30% a 50% na cotação. Foi exatamente o que aconteceu em 2022 com muitas tecnológicas, quando as taxas subiram e as expectativas foram revistas.
Outro risco relevante: em 2024, as chamadas "Magnificent 7" (Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta, Tesla) representavam cerca de 30% do S&P 500. Um investidor em ETFs de crescimento pode estar mais concentrado do que imagina.
O fator fiscal português
Em Portugal, tanto as mais-valias de ações como os dividendos são tributados à taxa liberatória de 28% (artigos 72.º e 71.º do CIRS; fonte: portaldasfinancas.gov.pt — confirma eventuais alterações do OE2025 antes de agir).
Isto tem implicações práticas:
- Uma estratégia de dividendos elevados gera tributação imediata a cada pagamento.
- Mais-valias só são tributadas quando vendes — o que favorece estratégias de longo prazo com reinvestimento.
- Dividendos de ações estrangeiras podem sofrer retenção adicional no país de origem (por exemplo, 15% nos EUA via formulário W-8BEN), com possibilidade de crédito de imposto em Portugal via convenções de dupla tributação.
Não há um estilo fiscalmente "melhor" — depende da tua situação. Mas vale a pena ter este fator em conta ao comparar rendimentos esperados.
Conclusão: qual escolher?
Honestamente? Não há resposta certa.
Quem precisa de rendimento regular e tem menor tolerância à volatilidade tende a inclinar-se para o valor. Quem tem um horizonte longo — dez, vinte anos — e consegue aguentar quedas temporárias de 30% ou 40% sem entrar em pânico pode ter mais conforto com o crescimento. E muitos investidores fazem simplesmente os dois, em proporções que fazem sentido para eles.
O que os dados históricos mostram com clareza é que os ciclos alternam, e ninguém — absolutamente ninguém — sabe com antecedência qual o estilo que vai vencer nos próximos cinco anos. Diversificar entre estilos e geografias é uma forma honesta de gerir essa incerteza.
Antes de investires em qualquer empresa ou ETF, verifica os rácios atuais em euronext.com/pt-PT ou morningstar.pt, lê o documento KID/KIID do produto e considera falar com um intermediário financeiro registado na CMVM (cmvm.pt).
🔴 Reforço do aviso: este artigo não é aconselhamento financeiro. Nenhuma empresa ou ETF mencionado constitui recomendação de compra ou venda. Os dados citados têm datas indicadas e devem ser verificados antes de qualquer decisão. Investe apenas o que podes perder, conhece a tua tolerância ao risco e toma decisões informadas — de preferência com apoio de um profissional qualificado para decisões relevantes.