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Quanto é que o banco te deixa pedir: guia da taxa de esforço

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Quanto é que o banco te deixa pedir: guia da taxa de esforço

Resposta rápida

A taxa de esforço (DSTI) é o máximo de rendimento mensal que podes comprometer com créditos. O limite máximo desceu de 50% para 45% em agosto de 2026. Para ganhos de €2.000 mensais líquidos, podes ter até €900 em prestações totais — incluindo hipoteca, carro e outros créditos.

Porque é que isto importa mais do que pensas

Se estás a pensar comprar casa, há um número que o banco vai calcular antes de qualquer outro: a tua taxa de esforço. É ela que define, quase a régua e esquadro, quanto te podem emprestar. Não o teu salário bruto, não o preço da casa que escolheste, a taxa de esforço.

E a 1 de agosto de 2026, esse número muda.

O Banco de Portugal baixou o limite máximo de 50% para 45%, para todos os contratos cuja avaliação de solvabilidade seja feita a partir dessa data. Cinco pontos percentuais podem parecer pouco. Na prática, para muitas famílias, significam dezenas de milhar de euros a menos de capacidade de compra.

Repara na data com atenção, porque é ela que manda: os processos avaliados até 31 de julho continuam sujeitos às regras antigas. Se estás com um processo em curso, isto é relevante para ti.

Neste artigo explico-te exatamente como funciona este cálculo, com exemplos reais, para que chegues ao banco já a saber o que esperar.


O que é a taxa de esforço (DSTI) e o LTV

Taxa de esforço (DSTI)

DSTI significa Debt Service-to-Income. Em português simples: é a percentagem do teu rendimento mensal líquido que vai para pagar prestações de crédito, todos os créditos, não só o da casa.

Fórmula:

DSTI = (soma de todas as prestações mensais ÷ rendimento mensal líquido) × 100

Exemplo: Se ganhas €2.000 líquidos por mês e tens €900 em prestações de crédito (casa + carro + cartão), a tua taxa de esforço é 45% (900 ÷ 2000 × 100).

O rendimento líquido que o banco considera é o salário já depois de impostos e descontos para a Segurança Social. Não o bruto.

LTV (Loan-to-Value)

LTV é o rácio entre o montante que o banco te empresta e o valor do imóvel. Diz-te, em percentagem, qual a fatia da casa que o banco financia.

Fórmula:

LTV = (montante emprestado ÷ valor do imóvel) × 100

Exemplo: Se a casa custa €200.000 e o banco empresta €180.000, o LTV é 90% (180.000 ÷ 200.000 × 100). Tu entras com os restantes €20.000 de capital próprio.

Um detalhe que apanha muita gente desprevenida: o valor usado no cálculo é o menor entre o preço de aquisição e o valor da avaliação do banco. Se compraste por €200.000 mas o banco avaliou em €190.000, é sobre os €190.000 que se aplicam os 90%, e a diferença sai do teu bolso.

Pensa nestes dois indicadores como os dois travões do banco: o DSTI protege-te de te endividares acima das tuas possibilidades; o LTV garante ao banco que o imóvel vale mais do que o dinheiro que te emprestou.


Como o banco calcula quanto te pode emprestar

O processo é mais metódico do que parece. O banco não olha apenas para o teu salário atual: aplica também um choque de taxa de juro, ou seja, testa se consegues pagar a prestação mesmo que os juros subam (e este teste de stress mantém-se nas novas regras). Considera ainda uma redução do rendimento esperado depois dos 70 anos.

O cálculo prático funciona assim:

  1. O banco apura o teu rendimento mensal líquido (teu e do co-titular, se existir)
  2. Multiplica por 45%, e esse é o máximo que podes ter em prestações totais
  3. Subtrai o que já pagas noutros créditos (carro, crédito pessoal, cartão de crédito)
  4. O que sobra é o máximo que podes pagar mensalmente pela hipoteca
  5. A partir dessa prestação máxima, com o prazo e a taxa de juro, calcula o capital máximo

Exemplo com dois perfis:

Joana (individual) Casal
Rendimento líquido €2.000/mês €3.000/mês
Limite 45% €900/mês €1.350/mês
Crédito ao consumo existente €0 €250/mês
Máximo disponível para hipoteca €900/mês €1.100/mês

Para a Joana: com o limite anterior de 50%, poderia ter até €1.000/mês em créditos. Agora são €900. Com uma taxa de juro a rondar os 3,5% e prazo de 35 anos, essa diferença de €100/mês representa, grosso modo, menos €20.000 a €25.000 de capital disponível. Ou seja, perde acesso a casas nessa faixa de preço.

É por isso que esta alteração importa. Podes fazer estas contas com os teus números no simulador de quanto podes pedir ao banco e no simulador de prestação do crédito habitação.


Os limites do Banco de Portugal: os números que precisas de saber

Estes são os limites em vigor a partir de 1 de agosto de 2026:

  • DSTI máximo: 45% (desceu de 50%)
  • LTV máximo para habitação própria e permanente: 90%
  • LTV para outros fins: 80%
  • Margem de exceção dos bancos: até 10% do montante total de crédito concedido por cada instituição, em cada semestre, pode ultrapassar o limite de DSTI (desceu de 15%). O regime foi simplificado: deixou de haver patamares e passou a existir um único balde de exceções, aplicável a quem fique acima dos 45% depois do choque de taxa de juro

Atenção a um ponto que passa despercebido: estas regras não são só para o crédito à habitação. Aplicam-se igualmente ao crédito ao consumo, e é por isso que o teu crédito automóvel entra na conta.

Um dado que contextualiza bem o impacto real: segundo o acompanhamento das medidas macroprudenciais do Banco de Portugal, a proporção de contratos com taxa de esforço situada entre 45% e 50%, ou seja, precisamente a faixa que passa a ficar fora do limite, subiu para 20% em 2023 e estabilizou à volta dos 18% nos últimos dois anos. Traduzindo: perto de um em cada cinco créditos concedidos recentemente não passaria pelas novas regras sem recorrer à margem de exceção.

Importa também saber que estas regras são, tecnicamente, recomendações do Banco de Portugal, não lei. Os bancos podem ultrapassá-las desde que justifiquem (o princípio "cumprir ou explicar"). Mas todos as seguem, o Fundo Monetário Internacional já recomendou que passem a ser vinculativas, e o governador Álvaro Santos Pereira tem defendido exatamente isso.


Quem é afetado pela mudança

A descida do limite de 50% para 45% não afeta todos por igual.

Mais afetados:

  • Famílias com rendimentos mais baixos, onde a prestação pesa naturalmente mais no orçamento
  • Quem já tem outros créditos ativos (carro, crédito pessoal) e tem pouca margem
  • Compradores até aos 35 anos, e aqui está o dado que surpreende: ao contrário do resto do mercado, o esforço financeiro deste grupo subiu em 2025, de 28,7% para 29,9%. O motivo é quase irónico: são os destinatários da garantia pública do Estado e das isenções fiscais, e como a garantia dispensa a entrada, financiam uma fatia maior do imóvel e ficam com prestações mais altas. Em 2025 registou-se mesmo uma percentagem significativa de créditos para habitação própria com LTV acima de 90%, precisamente por causa desse regime

Menos afetados:

  • Mutuários com mais de 35 anos, cuja taxa de esforço média até desceu, de 28,3% para 27,9%, a beneficiar da descida de juros e do aumento de rendimento
  • Famílias com rendimentos mais elevados e candidatos sem outros créditos

Os prazos também mudaram (e para os jovens até melhoraram)

A par da taxa de esforço, o Banco de Portugal simplificou as maturidades máximas dos créditos habitação a partir de agosto de 2026. Passam a existir apenas dois limites, em função da idade:

  • Até 35 anos (inclusive): prazo máximo de 40 anos
  • Mais de 35 anos: prazo máximo de 35 anos

Repara que, para os mais novos, isto é na verdade um alargamento: o prazo máximo para este grupo era de 37 anos. Foi ainda eliminado o critério do prazo médio de 30 anos por trimestre que os bancos tinham de respeitar no conjunto da carteira.

Prazo mais longo significa prestação mensal mais baixa, o que ajuda a cumprir o limite de DSTI. Mas atenção: um prazo maior significa pagar juros durante mais tempo, o que eleva significativamente o custo total do empréstimo. O alívio na prestação é real, o custo final também.


LTV: a tua entrada própria faz diferença

Com o LTV máximo de 90% para habitação própria, o banco financia até 90% do valor da casa. Os restantes 10% tens de ter em capital próprio, antes de qualquer despesa adicional.

Exemplo:

  • Casa de €200.000 → entrada mínima de €20.000
  • Casa de €300.000 → entrada mínima de €30.000

Mas o LTV não é apenas um obstáculo, é também um sinal. Quanto maior a tua entrada (ou seja, menor o LTV), mais favorável tende a ser a avaliação do banco. Um LTV de 70% em vez de 90% significa menos risco para o banco, e isso pode refletir-se nas condições que te oferecem, nomeadamente no spread.


Os custos que a taxa de esforço não inclui

Aqui está uma coisa que muita gente não sabe: a taxa de esforço considera apenas as prestações de crédito. Os custos de transação e propriedade ficam de fora do cálculo, mas não ficam de fora do teu bolso.

Numa compra de imóvel, conta com:

  • IMT (Imposto Municipal sobre Transmissões): depende do valor e da finalidade. Na habitação própria e permanente há um escalão isento nos valores mais baixos, e as taxas marginais sobem por escalões até 8%, com taxas únicas de 6% e 7,5% nos valores mais elevados. Na habitação secundária ou para arrendamento, paga-se desde o primeiro euro
  • Imposto do Selo sobre o crédito: 0,6% do capital financiado, em prazos iguais ou superiores a 5 anos
  • Imposto do Selo sobre o imóvel: 0,8% do valor de compra
  • IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis): pago anualmente, entre 0,3% e 0,45% do valor patrimonial tributário, conforme o município
  • Avaliação bancária: tipicamente entre €250 e €500
  • Escritura e registo: habitualmente entre €1.000 e €2.000
  • Seguro de vida (geralmente exigido pelo banco): pode rondar os €300 a €500/ano

Estes valores são adicionais à entrada de 10% que precisas de ter. Para uma casa de €200.000, podes estar a falar de €5.000 a €15.000 só em custos de transação, dependendo do escalão de IMT aplicável e de teres ou não direito às isenções para jovens. Planeia bem.

Se quiseres aprofundar tudo o que envolve o processo de candidatura, documentação, taxas de juro, seguros e negociação com o banco, tens o tema desenvolvido no guia completo de crédito habitação.


O próximo passo concreto

Se estás a pensar comprar casa em breve, aqui está o que fazer agora:

  1. Calcula a tua taxa de esforço atual: pega no teu rendimento líquido mensal, soma todas as prestações que já pagas, e divide. Se o resultado for confortavelmente inferior a 45%, tens margem. Se estiver perto ou acima, prepara-te para uma resposta difícil.
  2. Se tens um processo em curso, percebe em que regras cais. As avaliações de solvabilidade feitas até 31 de julho seguem o limite antigo de 50%. A partir de 1 de agosto, é 45%.
  3. Faz uma simulação antes de ires ao banco: o simulador de quanto podes pedir dá-te uma estimativa do montante máximo, e o comparador de crédito habitação ajuda-te a perceber as diferenças entre propostas. É um ponto de partida, não uma aprovação.
  4. Reúne a documentação: últimos 3 recibos de vencimento, últimas 2 declarações de IRS, extratos bancários recentes.
  5. Pede uma pré-aprovação antes de fazer ofertas por imóveis, para saberes concretamente com quanto contas.
  6. Considera um assessor financeiro independente se tiveres dúvidas sobre se comprar, arrendar ou investir, porque cada opção tem implicações diferentes, que deves avaliar à luz da tua situação pessoal.

E já que estás a organizar as tuas finanças para esta decisão, pode também fazer sentido rever a tua estratégia de poupança e fundo de emergência. Ter uma almofada financeira sólida é essencial antes de assumir um compromisso de décadas, e podes calcular a tua no simulador de fundo de emergência.


Este artigo tem fins exclusivamente educativos. Não é aconselhamento financeiro nem recomendação personalizada — a tua situação é única e a decisão deve ser tomada com base nela. Os limites e números aqui referidos refletem as regras do Banco de Portugal aplicáveis a avaliações de solvabilidade realizadas a partir de 1 de agosto de 2026; regulamentação, taxas e condições mudam, pelo que deves confirmar sempre com fontes oficiais e o teu banco antes de tomar qualquer decisão.

Perguntas frequentes

Como é que o banco calcula a taxa de esforço?

O banco divide a soma das tuas prestações mensais pelo rendimento líquido. Por exemplo, se ganhas €2.000 líquidos e tens €900 em créditos, a taxa é 45% (900÷2000×100). O banco considera apenas o rendimento já após impostos e descontos para Segurança Social.

Quanto dinheiro preciso de entrada para comprar casa?

Legalmente, precisas de pelo menos 10% do valor da casa como capital próprio (LTV máximo 90% para habitação própria). Mas tens ainda de contar com custos de transação como IMT, imposto do selo e escritura, que podem totalizar €5.000 a €15.000 adicionais para uma casa de €200.000.

A mudança da taxa de esforço para 45% afeta-me?

Se ganhas até €2.000 mensais líquidos, provavelmente sentes impacto — significando menos capacidade de compra. Se ganhas mais ou não tens outros créditos, o efeito é menor. Dados de 2026 indicam que 24% dos candidatos sentiram restrição com esta mudança.

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