Imobiliário
Taxa fixa ou variável? A decisão que custa milhares
Resposta rápida
A taxa mista domina em 2026 (75% dos créditos), oferecendo proteção com taxa fixa inicial (3,15%) seguida de variável. A escolha certa depende do seu perfil: fixa se rendimento fixo e aversão a risco; variável se rendimento crescente; mista se quer equilíbrio.
Escolher entre taxa fixa, variável ou mista no crédito habitação é uma das decisões financeiras com mais impacto na vida de uma família portuguesa. Não estou a exagerar: num empréstimo de 150 000 € a 30 anos, a diferença de menos de 1 ponto percentual na taxa pode representar dezenas de milhares de euros ao longo do contrato. E ainda assim, a maioria das pessoas decide isto em menos de uma tarde, sem perceber bem o que está a assinar.
Este artigo não te vai dizer o que escolher. O que vai fazer é garantir que percebes como funciona cada opção, o que os números de 2026 mostram, e como pensar a decisão consoante o teu perfil. A escolha certa é a que faz sentido para ti, não para o banco, não para o teu vizinho.
E há um dado novo que muda o pano de fundo desta decisão: a 11 de junho de 2026, o BCE subiu as taxas de juro de referência pela primeira vez em quase três anos, e admite novos aumentos ainda este ano. Depois de um ciclo de descidas, voltámos a um ambiente de subida. Vale a pena ter isto presente ao longo de todo o artigo.
TAN, Euribor e spread: os três números que tens de dominar
Antes de falar em fixa, variável ou mista, tens de perceber como se constrói a taxa que pagas. Há três conceitos-chave:
Euribor (Euro Interbank Offered Rate) é a taxa de referência do mercado interbancário europeu. É determinada externamente, nem tu nem o banco a controlam. Sobe e desce conforme as decisões do Banco Central Europeu e as condições do mercado. Em Portugal, segundo o Banco de Portugal, a Euribor é o indexante mais utilizado nos créditos à habitação com taxa variável, sobretudo nos prazos de 6 e 12 meses. Em meados de junho de 2026, a Euribor a 6 meses rondava os 2,5% e a Euribor a 12 meses os 2,8%, valores claramente acima dos registados no início do ano, refletindo a subida do BCE.
Spread é a margem de lucro do banco. É o único número em que tens poder de negociação. Varia consoante o teu perfil de risco, o rácio LTV (o quanto financias em relação ao valor do imóvel) e a tua relação com o banco. Uma boa notícia: os spreads caíram cerca de 70% nos últimos dez anos, com a grande maioria dos contratos a ter spreads abaixo de 1%, segundo as auditorias do Banco de Portugal.
TAN (Taxa Anual Nominal) é a soma dos dois anteriores. Exemplo concreto: Euribor a 6 meses (2,5%) + spread de 0,65% = TAN de 3,15%. É o número que determina os juros que pagas. Atenção: a TAEG (Taxa Anual de Encargos Efetiva Global) inclui ainda seguros e comissões, e é o número que deves comparar entre bancos.
Se queres aprofundar isto, tenho um guia completo sobre crédito habitação onde explico cada componente em detalhe.
Taxa fixa: dormir tranquilo custa alguma coisa
Como funciona
Na taxa fixa, a tua prestação não muda. Seja qual for o comportamento da Euribor — suba, desça, exploda — tu pagas sempre o mesmo. O banco assumiu esse risco por ti, e cobra por isso.
Vantagens
- Previsibilidade total. Sabes exatamente quanto vais pagar daqui a 10, 20 ou 30 anos.
- Proteção real se os juros subirem muito (como aconteceu em 2022-2023, quando a Euribor subiu mais de 3,5 pontos em menos de dois anos). Num ciclo de subida como o atual, esta proteção volta a ter valor.
- Facilita o planeamento familiar a longo prazo.
Desvantagens
- Custa mais agora. Em maio de 2026, a taxa fixa média rondava os 3,77%, contra cerca de 3,05% na variável, uma diferença de mais de 0,7 pontos percentuais em cada prestação. E atenção: num ambiente de subida da Euribor, os bancos também ajustam em alta as taxas fixas das novas propostas.
- Penalizações por amortização antecipada mais elevadas (podem chegar a 2% do capital amortizado, o máximo legal).
- É pouco escolhida: em 2025, representou apenas 6% do montante dos novos créditos, segundo o Banco de Portugal.
Perfil ideal
Rendimento fixo e estável (funcionário público, reformado), aversão absoluta à incerteza, prazo longo (25 anos ou mais), e capacidade de pagar uma prestação inicial mais alta em troca de previsibilidade total.
Taxa variável: mais barato agora, mais incerto depois
Como funciona
A prestação é revista periodicamente — normalmente de 6 em 6 meses ou de 12 em 12 meses — conforme a Euribor sobe ou desce. Se a Euribor baixar, pagas menos. Se subir, pagas mais.
Vantagens
- Taxa inicial mais baixa: cerca de 3,05% em média em maio de 2026.
- Amortizações antecipadas mais baratas: no máximo 0,5% do capital amortizado, contra até 2% na fixa.
- Beneficias diretamente se os juros descerem. Só que o ciclo atual é o inverso: com o BCE a subir, quem contratou variável em 2025 a contar com mais descidas está agora a ver a prestação aumentar.
Desvantagens
- Risco real de subida, e já não é teórico: o BCE voltou a subir taxas em junho de 2026. A crise de 2022-2023 mostrou o extremo (+3,5 pontos em menos de dois anos). Uma subida de 2 pontos num empréstimo de 150 000 € a 30 anos representa cerca de mais 170 a 180 € por mês.
- Difícil orçamentar a longo prazo.
- Em 2025, a variável representou 18,6% do montante dos novos créditos, a crescer face aos 12,4% de 2024, num contexto em que as taxas estavam a descer. Com a inversão do ciclo, este movimento pode voltar a travar.
Perfil ideal
Jovem profissional com rendimento em crescimento, capacidade de absorver variações na prestação, horizonte mais curto (menos de 15 anos) ou intenção de amortizar antecipadamente.
Taxa mista: a escolha dominante
Como funciona
Começas com uma taxa fixa durante 5 a 10 anos (o período inicial é definido no contrato) e depois transitas automaticamente para taxa variável. Exemplo típico: 3,15% fixo nos primeiros 7 anos, depois Euribor + spread.
Vantagens
- Juro inicial mais baixo do que a fixa pura (rondava 3,15% em junho de 2026), com proteção garantida nos primeiros anos.
- Depois do período fixo, beneficias da flexibilidade da variável, incluindo amortizações mais baratas.
- Equilibra segurança e custo.
Desvantagens
- Risco diferido: quando o período fixo termina, a prestação pode subir significativamente se a Euribor estiver alta nessa altura. Não podes controlar isso.
- Ainda mais cara que a variável pura nos anos iniciais.
O que o mercado está a fazer
A taxa mista continua a ser, de longe, a escolha dominante em Portugal: em 2025, representou 75,4% do montante dos novos créditos à habitação, segundo o Banco de Portugal. Perdeu algum terreno face a 2024 (81,5%), sobretudo para a variável, num ano em que as taxas estavam a descer. Com o BCE de novo a subir juros, a procura por proteção inicial pode voltar a reforçar-se. Isto não significa que a mista seja a certa para ti, mas é um sinal claro do que o mercado valoriza: proteção imediata sem o custo total da fixa.
Quadro de decisão: pensa assim
Não existe a opção "certa" universal. Existe a opção mais adequada ao teu perfil. Usa este quadro para pensar:
Pende para a taxa fixa se:
- Tens rendimento fixo e não consegues absorver aumentos na prestação
- O teu horizonte é de 25 anos ou mais
- A incerteza te causa stress real
- Podes pagar uma prestação inicial mais alta
Pende para a taxa variável se:
- Tens rendimento em crescimento e fundo de emergência sólido
- Planeias amortizar antecipadamente ou mudar de casa em menos de 15 anos
- Consegues absorver, sem entrar em dificuldades, uma subida de 200 € por mês na prestação
- Queres a flexibilidade máxima nas amortizações
Pende para a taxa mista se:
- Queres equilíbrio entre segurança nos primeiros anos e menor custo imediato
- Tens rendimento estável mas não muita folga para variações grandes
- O teu horizonte é entre 15 a 20 anos
- Aceitas o risco de não saber o que acontece depois do período fixo
A pergunta mais importante que podes fazer: "E se a Euribor subir 2 pontos percentuais? Consigo pagar?" Se a resposta for não — ou se a resposta te der ansiedade — a mista ou a fixa fazem mais sentido para ti. E não é uma pergunta académica: o ciclo de subida já recomeçou.
Custos que não te podes esquecer
A taxa é importante, mas não é o único número. Alguns aspetos fiscais e de custo que afetam a decisão:
- Imposto do Selo na contratação: pagas 0,6% sobre o montante do empréstimo (para prazos iguais ou superiores a 5 anos), mais 4% sobre as comissões bancárias. Nota importante: os juros do crédito para habitação própria (permanente ou secundária) estão isentos de Imposto do Selo. O selo de 4% sobre juros só se aplica quando o crédito se destina a habitação para arrendamento.
- Comissões de amortização antecipada: até 0,5% na variável, até 2% na fixa (máximos legais). Se planeias amortizar capital antes do fim do contrato, isto pesa muito na comparação. Confirma sempre o regime em vigor no momento, porque estas comissões já estiveram suspensas por lei em anos recentes.
- IMI: o Imposto Municipal sobre Imóveis não é afetado pelo tipo de taxa. Pagas sempre entre 0,3% e 0,45% do valor patrimonial tributário do imóvel por ano (taxa definida pelo teu município), independentemente do teu crédito.
- Seguro de vida e invalidez: exigido na prática pelos bancos em todos os tipos de taxa; o prémio não varia significativamente consoante escolhas fixa, variável ou mista.
Repara também que o Banco de Portugal alerta que nunca deves entregar dinheiro a um intermediário de crédito — é uma regra importante quando negoceias o teu crédito com terceiros.
Próximo passo concreto
Antes de assinar seja o que for, faz isto:
- Pede simulações a 3 ou 4 bancos com exatamente o mesmo montante, prazo e condições. Compara a TAN, o spread e a TAEG — não apenas a prestação.
- Testa o cenário pessimista: pede ao banco (ou simula tu mesmo) o que acontece à tua prestação se a Euribor subir 2 pontos. Consegues pagar? Tens fundo de emergência para aguentar? Se não tens fundo de emergência sólido, este guia de poupança e fundo de emergência é o ponto de partida antes de te comprometeres.
- Lê o contrato com atenção: periodicidade de revisão da taxa, penalizações por amortização, garantia de taxa mínima (floor) na variável, e qualquer comissão que não tenha aparecido na simulação.
- Considera falar com um consultor de crédito independente — especialmente se tiveres dúvidas sobre qual a opção mais adequada à tua situação.
Este artigo é informação educativa e não constitui aconselhamento financeiro personalizado. A decisão do tipo de taxa depende da tua situação específica — rendimento, dependentes, estabilidade profissional e tolerância ao risco. As taxas e valores de Euribor mencionados refletem dados disponíveis no início de julho de 2026 e mudam regularmente; verifica sempre os valores atuais antes de contratares qualquer produto de crédito.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre taxa fixa e variável no crédito habitação?
Na taxa fixa, a prestação nunca muda — pagas sempre o mesmo durante todo o contrato. Na taxa variável, a prestação é revista periodicamente conforme a Euribor sobe ou desce. A fixa custa mais agora (3,77% em maio de 2026) mas garante previsibilidade; a variável começa em 3,05% mas é imprevisível.
Quanto custa escolher taxa fixa em vez de variável?
Em maio de 2026, a diferença era de 0,72 pontos percentuais (3,77% versus 3,05%). Num empréstimo de 150 000 €, uma diferença de menos de 1 ponto pode representar dezenas de milhares de euros ao longo de 30 anos em juros pagos.
O que é a taxa mista e por que 75% das pessoas a escolhem em 2026?
A taxa mista começa com uma taxa fixa (ex: 3,15% por 7 anos) e depois transita para variável. As pessoas escolhem-na porque oferece proteção nos anos iniciais com custo menor que a fixa pura, além de ganhar flexibilidade depois quando os juros podem estar diferentes.
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