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Estudo MoneyClub · julho de 2026

Dinheiro parado: os 86 mil milhões que não rendem nada aos portugueses

As famílias portuguesas têm um valor recorde depositado nos bancos — mas quase metade está em depósitos à ordem, a render perto de zero. Fizemos as contas ao custo dessa inércia, com dados públicos do Banco de Portugal e do IGCP.

Por Hugo Venâncio · Atualizado a

86,2 mil M€

em depósitos à ordem das famílias, a render perto de 0% (Banco de Portugal, dez. 2025 — a subir em 2026)

2,356%

taxa bruta dos Certificados de Aforro (Série F) em novas subscrições, julho de 2026 (IGCP)

~2.030 M€/ano

juros brutos que esse montante renderia em Certificados de Aforro — o custo anual máximo da inércia

~236 €/ano

o que cada 10.000 € parados à ordem deixam de render face aos Certificados de Aforro (brutos)

O que dizem os dados

Os depósitos de particulares em Portugal atingiram um máximo histórico: 202,6 mil milhões de euros em abril de 2026, segundo o Banco de Portugal. Desse total, 86,2 mil milhões estavam em depósitos à ordem no fecho de 2025 — e o montante continuou a subir nos primeiros meses de 2026.

O problema: os depósitos à ordem rendem, em média, praticamente zero. No mesmo mês em que os Certificados de Aforro pagam 2,356% brutos em novas subscrições e a taxa média dos novos depósitos a prazo ronda os 1,42%, quase metade do dinheiro das famílias está estacionado sem remuneração nenhuma.

Quanto custa a inércia

Se os 86,2 mil milhões à ordem estivessem em Certificados de Aforro à taxa de julho de 2026, renderiam cerca de 2.030 milhões de euros brutos por ano (≈1.460 milhões líquidos, após os 28% de IRS). Mesmo no cenário conservador — manter um terço à ordem para a liquidez do dia a dia e remunerar apenas os restantes dois terços — a conta passa dos 1.350 milhões de euros brutos por ano.

À escala individual: cada 10.000 € parados à ordem deixam de render 235,60 € brutos por ano (169,63 € líquidos) face aos Certificados de Aforro — e cerca de 142 € brutos face a um depósito a prazo à taxa média.

Onde está o dinheiroTaxa brutaRendimento anual de 10.000 €
Depósito à ordem≈0%≈0 €
Depósito a prazo (taxa média de novas operações)1,42%142 € brutos · 102 € líquidos
Certificados de Aforro (Série F, jul. 2026)2,356%236 € brutos · 170 € líquidos

Porque é que isto acontece

Não é irracionalidade — é inércia e desconhecimento. Mover poupança exige comparar produtos, perceber prazos de resgate e fiscalidade, e vencer a sensação de que "não vale a pena para tão pouco". Os números mostram o contrário: à escala do país, a inércia custa milhares de milhões por ano; à escala de uma família, paga uma prestação ou umas férias.

A liquidez tem valor — ninguém deve pôr a prazo o dinheiro das contas do mês. Mas a distância entre "o que precisa de estar disponível amanhã" e "86 mil milhões à ordem" é onde vive o custo que este estudo quantifica.

O que fazer (sem correr riscos)

Metodologia e fontes

Cálculos do MoneyClub sobre dados públicos: stock de depósitos à ordem de particulares (86,2 mil milhões €, Banco de Portugal, dezembro de 2025 — último valor desagregado disponível; as responsabilidades à vista continuaram a aumentar entre março e maio de 2026), taxa bruta dos Certificados de Aforro Série F em novas subscrições (2,356%, IGCP, julho de 2026) e taxa média de novos depósitos a prazo de particulares (1,42%, Banco de Portugal, março de 2026). Rendimento líquido calculado com a taxa liberatória de 28% de IRS. Os valores agregados são estimativas de ordem de grandeza: assumem a taxa de novas subscrições aplicada ao stock e não consideram o limite de 250.000 € de subscrição por aforrista nem os prémios de permanência (que aumentariam o rendimento a partir do 2.º ano).

Este estudo é informativo e não constitui aconselhamento financeiro. Jornalistas: os dados e cálculos podem ser citados com referência a "MoneyClub (moneyclub.pt)"; para questões, contactar Hugo Venâncio.